Dos 200 Peito ao Ironman - uma história verídica.

"Se meu avô usasse saia, ele seria minha avó"

            Na primeira vez que eu vi a cobertura jornalística de um Ironman, eu pensei: "puxa, se eu treinasse para essa prova, eu conseguiria fazê-la!". O Ironman é um triatlon composto por 3.800m de natação, 180 km de ciclismo e uma maratona para terminar. No final da década de 90, minha carreira de nadador estava no seguinte pé: eu treinava forte umas 12 semanas antes do paulista, raspava e tentava surpreender meus adversários - que treinavam para o Finkel e Troféu Brasil - nos  200 peito. A tática deu certo até 1997, quando me sagrei campeão paulista de inverno pela 30° vez aos 27 anos. Quando em 1998 o Tomazzini bateu (destroçou) meu recorde de campeonato e eu coloquei-me longos 10s atrás em 15° lugar, senti que estava na hora de novos desafios. Era hora de retirar o maléfico "se" e treinar para o Ironman.

            Elaborei então um planejamento de longo prazo. A idéia era tomar contato com o triatlon e maratonas em 1999 e 2000 e fazer um treino intensivo específico para a prova apenas em 2001. A primeira parte do plano foi razoavelmente realizada: fiz um short triatlon em 1999 (750m-20km-5km), um olímpico em 2000 (1500m-40km-10km) e uma maratona também em 2000. Eu não contava com um problema no joelho esquerdo no segundo semestre de 2000, que me levou à mesa de cirurgia em novembro. A partir da artroscopia, eu tinha exatos seis meses e quatro dias para realizar o Ironman, sendo que toda minha experiência em triatlons resumia-se a míseras duas provas realizadas.

            Fisioterapia, férias, descanso. Finalmente no dia 15 de janeiro eu estava pronto para iniciar do zero 19 semanas de treinos específicos para o Ironman, orientado pelo excelente técnico Marcello Butenas. Semana após semana fui aumentando o volume de treinos, e a partir da semana 9 realizei 8 semanas seguidas com a seguinte média: 10.000 m de natação, 250 km de ciclismo e 42 km de corrida. Isso significa mais ou menos 16h horas semanais de treino, sem contar a logística (pôr bicicleta no carro, ir para a estrada, tirar bicicleta do carro, pedalar, pôr bicicleta no carro, correr, voltar para casa). No total a dedicação chegava a 24 horas semanais (obrigado à minha família pela paciência!). Duas semanas de polimento e enfim o sonho começava a se materializar: eu estava em Florianópolis na largada do Ironman Brasil 2001. Era um objetivo de três anos prestes a ser tentado.

            Os cerca de 50 profissionais saíram dez minutos antes, deixando os 450 amadores acotovelando-se e esperando a largada na areia da praia. Tiro de partida, 7:10 da manhã.  Na natação, segui o bloco da frente dos amadores, composto por cinco caras em fila, permanecendo em quinto. Na última bóia antes da chegada (faltando uns 600m), eu abri para a esquerda (10m) e comecei a passar os líderes, e o meu amigo e companheiro de treinos prof. Amendoim - técnico de natação do Paineiras - colou no meu pé e chegamos em primeiro e segundo. Na transição, eu fui com bastante calma (lento até) e o Amendoim abriu um pouco, ficando com o primeiro lugar da natação amadora e eu com o segundo. Por enquanto tudo era só felicidade, cumprimentei o Amendoim e seguimos em frente.

            O percurso de ciclismo era composto por duas voltas de 90 km. Como saímos em primeiro, éramos passados sem dó por dezenas de triatletas. A minha idéia era pedalar bem tranquilo. No km 60 me dei conta que, como todos me passavam, eu tinha a falsa impressão de estar devagar, quando na verdade estava gastando mais energia do que o planejado. A partir daí aliviei o ritmo, relaxei, e procurei curtir mais a prova. Passei a primeira volta bem, parei para ir ao banheiro (tem uns caras que fazem em cima da bike, eu nao consegui) e, animado com a fiel torcida dos amigos e da minha esposa, segui para a segunda volta. Por volta dos 130km eu estava me sentindo ótimo, e surpreendentemente segui bem ate o fim. Nesse momento minha única preocupação era com meu joelho direito, que doía bastante. Eu pensava que se no início da corrida essa dor permanecesse, eu talvez não chegasse. Fisiologicamente bem, cheguei na transição para a corrida.

            Tomei um advil para dor, fiz novamente uma transição tranquila e lenta e saí para correr. Era 1:30 da tarde e estava um sol bem forte. O movimento da corrida não causava dor no joelho, e nesse momento eu tive a certeza de que chegaria. O relógio da prova marcava 6:30 apenas e comentei com o Amendoim que tínhamos mais de 10h para completar uma maratona (o limite regulamentar do Ironman é 17h), ou seja, chegaríamos mesmo rastejando. Fui bem até o km 24, quando umas subidinhas me cansaram bastante. Parei para andar (uns 10 minutos) e me recuperar (incluí mais uma ida ao banheiro). Cheguei ao plano de novo, voltei a correr no piloto automático (6 min/km) e voltei a me sentir bem. Nos 30 km deu cãibra. Alonguei umas três vezes e depois saquei que se não fizesse movimentos bruscos a cãibra não aparecia. No final estava bem de novo, e tive gás para um último km um pouco mais forte, para não deixar uns caras da minha categoria me passarem. Os tempos finais foram os seguintes (as transições estão incluídas no tempo do ciclismo):

Amendoim             N 48'50"; Ci 5h41'37"; Co 4h02'46"; Total 10h33'13"
Renato                    N 48'57"; Ci 5h42'16"; Co 4h11'12"; Total 10h42'25"

            Cruzar a linha de chegada e ter o prazer de sentir um objetivo de três anos conquistado foi uma alegria semelhante - senão maior - às minhas maiores vitórias na natação (que não foram tantas assim). E se você, que heroicamente leu esse texto até aqui, está pensando algo como "puxa, se eu treinasse X, eu faria Y", trate de eliminar o "se". Você terá muito mais chances de conseguir se tentar.

Renato Cordani
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rcordani@uol.com.br