Como surgiu um triathleta

Tive a minha adolescência sempre envolvido com alguma atividade física. Nascido em Santos não poderia deixar de gostar de esportes na praia. Adorava velejar, surfar, bater frescobol, correr, sem preocupação de tempo e pulso, na beira do mar apreciando as garotinhas (como era mais agradável correr nesta época), ficar perto dos canais fazendo barras, flexões e abdominais, atividades de um vida boa na beira do mar. Nunca para competição, somente para manter o bem estar do corpo. É lógico que esta vida boa era somente nos finais de semana e feriados, afinal levava os estudos a sério pois queria fazer faculdade, e esta meta foi concluída com êxito.

Quando comecei a trabalhar no interior acabou esta moleza de academia gratuita (praia) e comecei a pensar em entrar em uma academia. Ficar em quatro paredes puxando ferro não era meu estilo e optei pelas artes marciais. Depois de assistir uma aula de cada modalidade optei pelo KUNG-FU. Levei a sério porem depois de alguns anos tive um problema de costela e abandonei. Casei e entrei em uma vida meio sedentária em termos de treinamento. Resolvi voltar ao KUNG-FU e de quebra comecei a treinar KARATÊ pois era de graça e no local de trabalho. Após um tempo acabei quebrando um pé no KUNG-FU de bobeira e tive que ficar quarenta e cinco dias sem botar o pé no chão. O lado bom foi que fiquei sem trabalhar mas o lado ruim é que nunca fiquei tanto tempo parado em minha vida. Certo dia estava assistindo televisão, como já era uma rotina de quem não pode andar, e assisti uma competição de triathlon-kid. Lembrei que um amigo já havia falado sobre a difícil disputa que era o triathlon e como era interessante. Pensei, gosto de nadar, correr e pedalar, passei a infância e adolescência toda andando de bike, vou tentar esta "impossível" façanha. Comecei a "treinar" sem compromisso as três modalidades para ver se conseguia simplesmente terminar um Short-Triathlon. Peguei informações com um amigo que já competia na modalidade e peguei uma revista "Trekking" que tinha uma reportagem sobre o triathlon com uma planilha básica de treinamento. Segui esta planilha por um bom tempo.

Começou o ano de 1993 e fui assistir uma competição de triathlon em Santos para ver alguns detalhes de largada, transição e equipamentos. Adorei a prova e não via a hora de fazer a inscrição para a próxima etapa. Levei os treinamentos da planilha a sério, nunca esquecendo que era somente um hobby e não poderia atrapalhar minha vida e serviço. Uma semana antes fui ao local da largada e fiz um Short-Triathlon sozinho como treinamento. Hoje eu sei que não se treina uma competição para competir.

Hora da largada, cinco minutos pareciam meia hora. A sirene tocou e até hoje tenho este som na cabeça. Sai para nadar como um desesperado. Nadei, nadei, nadei e estava em primeiro porem não sai daquele lugar e todo mundo começou a me ultrapassar e eu nem tinha alcançado a primeira boia. Olhei para o lado e ainda tinha gente com água no peito. Levantei e observei que até então era ora de mergulhar e não nadar desesperadamente (pode dar risada, eu também ri). Havia bastante ondas. Voltei a nadar novamente e a boia não chegava. Olhei o mar bravo e pensei em desistir pois nunca fui nadador. Tive um momento de reflexão e lembrei, treinei estas distâncias três meses sem problema, porque não conseguiria completar mais uma vez. Mergulhei a cabeça na água e não quis saber a distância da bóia. Quando prestei atenção estava do lado dela e dai por diante foi só deixar a competição desenrolar e esperar o final da prova. A corrida era a preocupação: Será que conseguirei completar esta longa prova sem precisar andar. Chegou a linha final e foi só alegria. Esposa, mãe, pai, periquito, cachorro e tudo que tinha direito para dar os parabéns. Que alegria. Dai por diante o objetivo seria abaixar os meus tempos. Segunda competição o tempo havia abaixado. Terceira também. Quarta seria a decepção e raiva. Havia treinado mais e o tempo havia piorado. Primeira experiência: cada competição é uma competição e depende muito do seu dia e do clima. Com esta pequena perda simplesmente pessoal (perdi para mim mesmo) percebi que todo dia se alguém ganha é óbvio que alguém perde e este alguém muitas vezes é você, porem podemos perder alguma colocação mas a experiência de vida ninguém tira de você (momento Cafússio).

Superado o medo do Short resolvi competir em um olímpico. Fiz até plano de saúde em respeito a competição. Completei a prova e fiquei melhor colocado que no Short. Aí veio a correlação: Se em uma competição em dobro de distância do Short eu foi melhor em um ½ IronMan eu vou melhor ainda (pode rir novamente). Fui melhorando gradativamente sem pretensões até que chegou a hora de escolher um técnico para treinamento. A melhora foi significativa e os objetivos já eram mais ousados. Resolvi fazer o primeiro 1/2 Iron. Fui bem na prova porem queria saber porque no quilometro quinze amarram uma ancora no nosso pé? Há, se fui melhor colocado do que no olímpico? Digamos que os mesmos feras do olímpico estavam no ½ Iron. IronMan completo, nem pensar!. Somente minha esposa acreditou. Dois anos depois descobri que o treinamento para o IronMan não era tão além do que no ½ Iron e lá estava eu completando meu primeiro IronMan.

Interessante o que as pessoas dizem para você. Algumas elogiam de coração, outras elogiam mas na verdade estão falando "pô, treinou tanto para não ganhar" e outras falam "você não vai agüentar muito tempo treinando assim... quando casar não vai ter mais tempo para isto.... quando teu filho(a) nascer esta moleza vai acabar.... o "trampo" vai pegar e você não vai agüentar". Passei por tudo isto e aprendi que se tiver determinação, boa vontade, disciplina e abrir um pouco de mão de uma coisinha ou outra, você consegue. Se tirar quinze minutos de quatro tarefas, os quinze minutos não vão atrapalhar muito mas já esta com uma hora de treino. Não de desculpa de chegar em casa e não brincar com o filho ou dar "assistência" a mulher. No mínimo pode ficar uma hora com cada. O tempo mínimo para ver um filme que acaba com um final babaca ou ver dois jornais que vão lhe dar gastrite. Sobrou muito tempo leve a mulher para comer fora, mas não quer dizer somente transar na varanda.

As olimpíadas que se torna interessante. O atleta que ganha olha para o cronometro e dá um soco no ar reclamando porque não bateu o recorde mundial, o segundo reclama que por pouco não ficou em primeiro e o terceiro sorri porque conseguiu um pódio. Um absurdo é a medalha de ouro ser de prata foliada a ouro. Os organizadores ganham tanto dinheiro que não da para fazer uma medalha toda de ouro. Não venha com esta de é apenas simbólico porque ninguém treinou de forma simbólica. E o mais absurdo sendo o esporte um sinônimo de saúde os atletas tomarem "bombas", sabendo que poderá prejudicar a saúde, para ganhar uma competição. Eu iria dormir com a impressão de ter ficado rico roubando dos pobres. Bem, é apenas uma opinião pessoal.

Bem o que aprendi com tudo isto até hoje: Esporte é saudável, porem tudo que é demais e de forma errada prejudica. Composições milagrosas podem ter dar alguns pódios porem sua saúde pode ficar comprometida e tira a razão da saúde do esporte. Se você começar cedo em alguma atividade pode ter chance de ser um campeão olímpico porem pode logo ficar de saco cheio de treinar e dai por diante ser somente mais um bolo fofo sedentário. Começando cedo você também pode ser interrompido pelos estudos, pelo trabalho ou pela família, porem se você for determinado e souber dividir seu tempo nada irá te atrapalhar. Começar tarde tem o lado bom, você já esta com o rumo mais ou menos certo e é tudo por prazer e saúde.

O que combina com o esporte: Deus, natureza, saúde, disciplina, responsabilidade, determinação, boa alimentação e boas amizades. O que não combinam com o esporte: Drogas, brigas, mau humor e péssimas amizades. Espero que tenham gostado e quem quiser entrar no esporte não irá se arrepender. É só encontrar o esporte que mais lhe agrada. Não seja um chato que só sabe fazer e falar sobre o seu esporte. Curta a vida.

Abraços

Carlos Paiva