Entrevistas

Luiz Carlos de Moraes

MORAES FALA DAS DROGAS NOS ESPORTES E NAS ACADEMIAS

 

Luiz Carlos de Moraes é Treinador de Atletismo há 26 anos, e há 6 anos ministra aulas de Step, Ginástica Localizada, Alongamento e Relaxamento em duas academias em Petrópolis. Trabalha em uma das maiores empresas do país onde coordenou durante dez anos, em parceria com o serviço médico, um programa de Qualidade de Vida para os empregados. É um dos nossos colunistas enfocando a Fisiologia do Exercício. Está inscrito no Conselho Regional de Educação Física.

Moraes, como é conhecido, diz na entrevista que o doping pode até dar uma certa vantagem aos atletas, mas cobra muito caro à saúde levando muitas vezes o usuário à morte. No caso dos anabolizantes o entrevistado não vê graça nenhuma ficar forte e impotente. Como estamos em ano Olímpico a questão do doping é quase sempre notícia de jornal e pode induzir aos jovens a usar.

TotalSport - Com a aproximação das Olimpíadas muitos atletas têm sido flagrados usando doping. O que você acha disso?

MORAES - A história do doping não é nova e tem sido usado indistintamente durante todo ano em diversos segmentos. Claro, por ocasião da aproximação das Olimpíadas os atletas estão na mira das Federações. Muitos atletas mau orientados usam o lema "vale tudo para ir às Olimpíadas".

TS - Como se divide o doping? Todos os atletas usam as mesmas substâncias?

M - Não. De um modo geral o doping é usado, ou para retardar a fadiga ou aumentar a força física. Isso tem a ver respectivamente com esportes de longa duração e as modalidades onde a força física é fator preponderante como as corridas curtas e as diversas categorias de levantamentos de peso.

TS - Você pode descrever um pouco melhor? Ou seja, o que cada um usa?

M - Nos esporte de resistência o mais usado é a eritropoetina (EPO), um hormônio renal cuja função é controlar a quantidade de células vermelhas no sangue. O atleta geralmente usa o retirado dos rins do carneiro para aumentar a quantidade de hemoglobina e a oferta de oxigênio. Os esportistas de força geralmente procuram os anabolizantes, um medicamento à base do hormônio masculino testosterona.

TS - Essas drogas fazem realmente o atleta render mais?

M - De um modo geral sim. Mas elas cobram o seu preço na saúde e muitos atletas morreram e outros conheceram a dor de ficar mutilados. O EPO por exemplo, como tem um efeito de aumentar a quantidade de células vermelhas, o sangue pode ficar mais viscoso e o atleta corre o risco de morrer dormindo em metabolismo basal quando a freqüência cardíaca é bem menor principalmente nos atletas de resistência. No caso dos anabolizantes o mal vai desde a impotência, à infertilidade até o câncer no fígado e, morte.

TS - Como é detectado a presença dessas drogas no corpo?

M - O EPO, o exame mais fidedigno é o de sangue onde o as células estimuladas artificialmente quando visualisadas no microscópio eletrônico são ligeiramente maiores e tem uma coloração diferente da normal. Já os anabolizantes são facilmente detectados no exame de urina.

TS - Se é tão fácil de pegar o atleta que usa anabolizante o que eles fazem para escapar dos fiscais?

M - Essa coisa do doping é como polícia e ladrão. O Comitê Olímpico cria métodos melhores pra pegar os dopados, aí os envolvidos inventam uma maneira de burlar os exames. Um dos métodos muito usado pelos usuários de anabolizantes é o chamado ciclo interrompido onde o atleta usa por um tempo intercalando com paradas programadas. Aí eles competem e não aparece na urina.

TS - E nas academias de musculação, o pessoal faz uso dos anabolizantes?

M - Tem-se notícias de uso e abuso de anabolizante principalmente por pessoas que não são atletas querendo ficar forte em pouco tempo. Realmente essas drogas produzem o efeito desejado, mas eu pergunto: Que graça tem ficar forte e impotente? Como estamos em ano Olímpico a questão do doping é quase sempre notícia de jornal e isso pode influenciar negativamente aos jovens.

TS - Os anabolizantes tem outros efeitos nocivos?

M - Tem e muitos. Atrofia dos testículos, ginecomastia (crescimento das mamas no homem), insônia, hipertensão arterial, lesões tendinosas, sangramento nasal, resfriados freqüentes e muitas vezes o sujeito se torna violento. Nas mulheres os relatos são irregularidades menstruais, hipertrofia do crítoris, diminuição das mamas, engrossamento da voz, acne, queda de cabelos no couro cabeludo e crescimento de pelos masculinos no corpo. O pior é que quando as pessoas resolvem parar, relatam tonturas, fraqueza, perda da libido e dores articulares. Reações que acabam causando dependência.

TS - O pessoal que usa é orientado por quem? Por professores de Educação Física?

M - Os anabolizantes são classificados como medicamentos e como tal, tem finalidades terapêuticas na recuperação de atrofias musculares, alguns tipos de câncer, reposição hormonal quando necessária, entre outras doenças. Sendo medicamento só pode ser prescrito por médico. Mesmo, se fosse o caso, classificado como recurso ergogênico quem de direito poderia prescrever é o nutricionista. Portanto, o profissional de Educação Física não pode, em hipótese nenhuma prescrever anabolizante. Isso é ilegal e fere o código de ética. Cabe sim, a ele, como é o profissional que está mais perto do usuário, orientar claramente sobre os perigos dessas drogas. Justamente por ser quem está mais próximo do usuário é quem acaba levando a culpa. Esses medicamentos só podem ser comprados com receita médica mas, se tem gente que consegue comprar, isso foge da alçada tanto dos médicos como dos profissionais de Educação Física. Infelizmente na internet pode-se encontrar sites descrevendo os anabolizantes mais usados e como é usado.

TS - E qual é a pena para isso?

M - Para o professor, se flagrado, é responder ao Tribunal Regional de Ética podendo ser desde advertido até cassado o exercício profissional. Veja bem, o problema é que tem de haver provas irrefutáveis. Se não, fica só no "disseram" e quem acusa, se não provar, ainda corre o risco de ser processado. Infelizmente quem ainda paga a pena maior é o usuário, que além de pagar caro pelas drogas ainda pode morrer. Com a regulamentação da profissão espera-se crescer a gama de profissionais bons e éticos.

TS - Qual a sua mensagem final aos nossos leitores?

M - A minha mensagem vai principalmente para os jovens que gostam da musculação da corrida, ou esportes combinados e etc. Tenham um corpo bonito e saudável com um bom programa orientado por bons profissionais. Quem usa droga pra ficar forte ou correr mais é "careta" e ainda pode ficar impotente ou morrer. Aos colegas de profissão eu conto com a adesão em massa contra as drogas, nas pistas e também nas academias. Aos práticos que ainda não se inscreveram no CREF (Conselho Regional de Educação Física) da sua região ainda está em tempo. Quem não está inscrito, graduado ou não, está exercendo ilegalmente a profissão. Um grande abraço a todos.